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Um livro e algumas decepções – Bibliotecários Sem Fronteiras

Trabalho há muitos anos na Universidade de São Paulo e tenho imenso respeito pela pesquisa acadêmica, que acompanho de perto ao ajudar professores e alunos na biblioteca onde atuo.  E brigo de sair no tapa com quem falar mal das universidades e seus pesquisadores perto de mim – nem tentem.

Mas isso não me impede de exercer meu senso crítico que, afinal, a universidade ajudou a desenvolver, e que se aguça quando leio literatura acadêmica da minha principal área de interesse na biblioteconomia: os acervos audiovisuais.

E é com essa disposição que mistura respeito e implicância, que faço agora meus comentários sobre o livro Recursos audiovisuais: sua  contemporaneidade na organização e representação da informação e do conhecimento, organizado por Ana Cristina de Albuquerque (UEL) e Ana Carolina Simionato (UFSCar).

A implicância já começa pelo subtítulo. O que exatamente quer dizer “sua contemporaneidade na organização etc ”? Minha alegria ao encontrar um livrinho escrito por pesquisadores brasileiros sobre esse tema que tanto me interessa diminuiu sensivelmente ao refletir sobre esse curioso subtítulo e mais ainda ao me deparar com uma vírgula mal colocada e uma concordância bizarra logo no texto da contracapa. Falhas de revisão acontecem, bem sei, mas não dá pra ter erro num texto curto na contracapa de um livro acadêmico. Gente…

O livro, resultado do trabalho de um grupo de pesquisa, contém 6 capítulos cujos autores parecem ter se dedicado com seriedade às suas pesquisas, mas com resultado de qualidade desigual.

O texto A organização da informação da perspectiva da comunicação: as fotografias de Romeiroso (sic) tem um problema que vejo com frequência na literatura da área quando trata de técnicas e conhecimentos válidos e generalizáveis para virtualmente qualquer situação pensando em sua aplicação a um caso específico: apenas constata o que já é amplamente conhecido. Obviamente, apenas um acervo organizado e tratado poderá gerar conhecimento e propiciar debate. As autoras não apontam, na coleção de imagens de romeiros que analisaram, nenhuma particularidade ou característica que possa diferenciar sua organização de quaisquer outras coleções de imagens ou que demandem abordagens distintas dos princípios de tratamento de documentos fotográficos já conhecidos. Ou seja, a parte teórica do texto é interessante, em especial quando enfatiza a importância das imagens como documento e fonte de informações, mas a relação com a prática não se apresenta de forma clara.

O segundo capítulo, A perspectiva da análise de domínio como aporte à análise de documentos fotográficos: algumas considerações, a meu ver é um dos melhores do livro. É possível que a análise de domínio, teoria sobre a qual ainda não tenho mais informações além das que encontrei nesse texto, possa ser útil para entendermos melhor um fato bastante conhecido, mas pouco estudado: o contexto de produção e uso é um fator decisivo na no tratamento temático de coleções de imagens. A pergunta “como faço para tratar uma coleção de imagens” será sempre respondida com uma outra pergunta inicial: “imagens de que área”? Imagens de medicina, fotos jornalísticas e reproduções de obras de arte exigem olhares totalmente diferentes por parte dos indexadores. Acredito mesmo, com base na minha experiência prática, que a área é um fator importante também na catalogação. A noção de título, por exemplo, e a importância dessa informação muda muito conforme a área, sendo praticamente irrelevante ou inexistente em algumas e muito importante em outras. Mas o texto não avança em relação a possíveis aplicações práticas, ainda está no estágio do “acredita-se”. Aguardemos.

Abordagens multimodais para análise de documentos audiovisuais é um texto com alguns problemas. Um deles é a falta de definição  explícita de que tipo de indexação se está tratando: automática, executada por máquinas, ou indexação por humanos? Pelo contexto é possível inferir que o autor está abordando processos automáticos, mas em alguns momentos tive a impressão de que ele se refere a processos humanos ou híbridos. No parágrafo final, por exemplo, na qual afirma que

ao olharmos e buscarmos a compreensão de como as ideias e emoções ganham forma, bem como a toca efetiva dessas ideias e emoções entre seres humanos contida nos documentos audiovisuais, diversos avanços podem ser alcançado na área da Ciência da Informação (p. 53 a 54).

Como a multimodalidade vai resolver isso? Como seria esse processo?
Partindo do princípio que a multimodalidade vai ocorrer na indexação automática, faltou explicar qual é a novidade nessa abordagem. As técnicas que não são multimodais não consideram os diferentes níveis de conteúdo citados pelo autor, som, imagem e texto? O que há de diferente e inovador na multimodalidade? Para o leitor que não está familiarizado com o conceito, fica difícil entender a ideia. O texto é bastante técnico e, em alguns momentos, um tanto obscuro. Talvez isso ocorra, admito, por falta de informação minha. Só minha ou de muitos outros leitores? Uma das funções de trabalhos acadêmicos como esse é justamente explicar alguma coisa e se fazer entender, para que o conhecimento da área continue se desenvolvendo?

Também é difícil entender o que faz nesse artigo um capítulo sobre uso de vídeos no ensino à distância. Suponho que seja um interesse pessoal ou profissional do autor, que talvez visualize uma relação entre o uso do vídeo no ensino e as técnicas de indexação e recuperação da informação, mas isso não está explícito no texto. A gente fica se perguntando o que uma coisa tem a ver outra, o que é, me parece, uma falha num trabalho acadêmico.
Outro detalhe que me incomodou é essa afirmação:

Os vídeos digitais veiculam informação por meio de imagens (fixas e dinâmicas), textos e sons. Ao compararmos os vídeos com textos ou imagens, o vídeo difere por ser uma grande aproximação da experiência humana no mundo real. O vídeo digital traz uma dimensão significativa da nossa experiência do mundo: envolve sequências de mudança e de repetição nos campos visual e auditivo (…) (p. 41).

Primeiro: essas não são características exclusivas dos “vídeos digitais”, mas de qualquer vídeo ou filme em qualquer suporte. Segundo: ao fazer uma afirmação desse tipo, o autor deveria incluir uma ponderação a respeito do efeito de realidade da linguagem audiovisual, sobre a representação do real nos filmes – tema sobre o qual há muita literatura disponível. Não mencionar essa questão é ignorar um aspecto importante da linguagem desses documentos, um aspecto que tem muito impacto na atividade de indexação. Não se pode falar de “mundo real” e imagens em movimento na mesma frase sem entrar em questões mais profundas.

O autor está propondo uma arquitetura utilizando a análise multimodal e, para isso, construiu uma base de dados de testes. Infelizmente, as explicações do texto não são suficientes para que se possa entender como funciona essa ferramenta. Ele cita um trabalho que parece ser dele mesmo – é o mesmo sobrenome – que talvez contenha mais detalhes, mas essa fonte  não aparece na lista de referências. Ou seja, o leitor vai ter muita dificuldade em entender as funcionalidades da base de dados e visualizar, na prática, a análise multimodal. Parece interessante, fiquei curiosa, mas creio que vou continuar sem saber qual é a diferença entre a análise multimodal de filmes e a análise que sempre fiz, já que analisar imagem, som e texto é princípio básico da indexação de imagens em movimento.

O tratamento descritivo para recursos audiovisuais: a representação de filmes é, infelizmente, o mais decepcionante para quem tem experiência prática na área. Muito falho, contém conceitos equivocados. Por exemplo, o conceito de dispositivo, que a autora parece não ter compreendido ou não ter conseguido explicar corretamente. O dispositivo não é, como a autora afirma, referindo-se ao conceito expresso nos Functional Requirements for Bibliographic Records – FRBR, a manifestação.   Na fonte citada pela autora, o texto de Parente (2009) *,  dispositivo cinematográfico é um conceito bem mais amplo, que inclui um aspecto material – os equipamentos de produção e exibição, o espaço da sala escura – e aspectos psicológicos e ideológicos, com as formas de recepção pelo espectador, a impressão de realidade etc.

O texto contém confusões terminológicas indesculpáveis, como esta: “Inicia-se a discussão dos recursos audiovisuais por meio de sua terminologia, que advém do francês audiovisual (sic)” (p. 78). Dois erros na mesma frase: o termo em francês é audiovisuel, e não encontrei em nenhum bom dicionário a informação de que o termo em português vem do francês. Mais adiante, a autora passa a se referir a recursos fílmicos, alternado essa designação com recursos audiovisuais, sem explicitar distinções entre um conceito outro ou explicar o uso dos dois termos.

O conceito de gênero, inescapável para quem pretende tratar imagens em movimento, mas bastante problemático, é tratado de forma superficial. A autora cita uma lista de gêneros extraída de uma única fonte, sem questionar suas inconsistências, sem apontar a existência de outras possibilidades nem alertar para as dificuldades práticas que surgem no momento de conceituar, elaborar listas de termos e identificar o gênero dos filmes no momento da indexação.

Mas o maior problema do texto está justamente em seu tema central, a catalogação de filmes. A autora se baseia fortemente nas regras do AACR2 e o formato MARC, sem apontar as notórias deficiências dessas duas ferramentas para o tratamento de imagens em movimento. O texto sequer menciona as regras da Federação Internacional dos Arquivos do Filme, cujo conhecimento é fundamental para compreensão das informações necessárias à descrição desses materiais. Tampouco analisa as contribuições dos FRBR para essa área, que são importantes. Menciona de forma superficial o Metadata Standards for Cinematograhic Works, sem analisar suas vantagens em relação a outros padrões. Além disso, o quadro com os elementos descritivos desse conjunto de metadados contém erros de tradução que prejudicam a compreensão do enunciado. Nenhum profissional ou pesquisador que conheça acervos de filmes definiria série como “grupo de artigos distintos relacionados entre si, pelo fato de que cada um suporta de item, em adição ao seu próprio título, um título coletivo, aplicação para o grupo como um todo” (p. 92). Tradução automática sem revisão? Gente…

A falta de cuidado com a escrita aparece em vários parágrafos confusos,  dificultando a compreensão de conceitos importantes. Por exemplo:

Outro dado importante é que os filmes podem ser baseados em livros. No caso de obra modificada, a qual se apresente como uma modificação de outra, a entrada principal deve ser adequada pelo adaptador. Isto é, deve ser adequada à nova obra caso a modificação tiver alterado a natureza e o conteúdo originais, ou se o meio de expressão for alterado. ( p. 86)

Em quase todos os capítulos do livro está presente, de alguma forma, um problema recorrente na literatura da nossa área: o distanciamento da realidade prática. Temas interessantes e bons referenciais teóricos naufragam, com frequência, na falta de intimidade dos autores com procedimentos de catalogação, indexação, administração de acervos etc. Quando a pesquisa teórica pretende buscar soluções ou, ao menos, reflexão crítica sobre esses processos, essa lacuna pode ser fatal. E não estou dizendo que só quem tem experiência prática pode se dedicar a estudar e a escrever sobre os assuntos do bibliomundo, mas sim que é fundamental estudar e conhecer bem essas práticas – e não apenas por meio da literatura – sob pena de cair no discurso intelectual inócuo. Ou pior, de escrever bobagem e ter suas bobagens citadas por aí.

Não tenho muito a sobre o último capítulo do livro, Curadoria digital e organização do conhecimento: portais semânticos para as artes e cultura, porque não domino o assunto, mas tenho algo a dizer sobre a autora, com quem tive o prazer de conviver. Gabriela Previdello Orth desembocou na biblioteconomia e na ciência da informação pelo caminho das artes visuais, sua formação e interesse originais. Mas, ao contrário de outros pesquisadores que migraram de outras áreas e fazem carreira fingindo que entenderam tudo e se escondendo atrás de um discurso sofisticado e vazio, Gabriela fez questão de entender as práticas da biblioteconomia. Passou dias na Biblioteca da ECA – e talvez em outras bibliotecas também – crivando a mim e outras bibliotecárias de perguntas sobre nosso trabalho, com enorme disposição em aprender. E aprendeu muito, tanto que decidiu entrar na graduação enquanto fazia seu doutorado, para trabalhar como bibliotecária no futuro. Um futuro que não chegou a existir para ela. Teria sido uma excelente profissional e uma pesquisadora notável.

* PARENTE, A. A forma cinema: variações e rupturas. In.: MACIEL, K. (Org).Transcinemas. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2009. p. 23-47







Fonte:
Um livro e algumas decepções – Bibliotecários Sem Fronteiras

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