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O valor da redução dos picos epidêmicos da COVID-19 para respostas mais efetivas à saúde pública [Originalmente publicado como editorial na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical vol. 53]

Por Daniel Antunes Maciel Villela, Fundação Oswaldo Cruz, Programa de Computação Científica, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

O surgimento do vírus SARS-Cov-2 em Wuhan, China, em
dezembro de 2019, levou a uma epidemia local que se espalhou rapidamente para
vários países do mundo, impondo desafios consideráveis em vigilância e
controle. Em 16 de março de 2020, a OMS declarou1 que a infecção associada ao
SARS-Cov-2, denominada COVID-19, havia se espalhado em mais de 100 países, com
mais de 160.000 casos confirmados e mais de 6.000 mortes em todo o mundo.

Ainda existe uma grande incerteza quanto aos picos epidêmicos que podem ocorrer em vários locais onde o vírus chegou devido a fator es como condições socioambientais e níveis de imunidade da população. Estes picos estão claramente relacionados não apenas ao tamanho das populações locais, mas também ao número de reprodução da doença, que informa o número médio de casos secundários que são esperados a partir de um caso inicial em uma população suscetível2. Para que os principais atores em saúde pública e suas equipes de vigilância local preparem estratégias de mitigação, uma avaliação dos números básicos de reprodução pode ser bastante útil. As estimativas de número de reprodução da COVID-19 variaram em diferentes localidades, atingindo valores entre 1,4 a 3,93-5, com tempo de duplicação da epidemia estimado em 6,4 dias por Wu, et al.3 e 7,4 dias por Li, et al.4 Claramente, os picos também dependerão da eventual conscientização das populações locais, medidas de prevenção de vigilância e intervenções em andamento.

Imagem: CDC/Hannah A Bullock; Azaibi Tamin.

A curva epidêmica que melhor se ajusta ao número esperado de
novos casos nestas localidades mostra uma taxa crescente muito grande nos
primeiros dias e semanas, seguida, no entanto, por uma desaceleração gradual
até atingir um pico epidêmico. Além deste pico, a contagem diária de número de
casos deve diminuir, apesar de eventuais condições adversas que causem rebotes
efêmeros. Portanto, uma vez que uma epidemia já esteja estabelecida, o primeiro
objetivo deve ser reduzir os picos da epidemia. Isso reduzirá o ônus imposto
aos sistemas de saúde, o que permitirá tratamento e cuidados adequados para a
população afetada.

O número de novos casos pode ser avaliado por meio de um
produto entre a força da infecção, uma medida de sua intensidade de
transmissão, claramente proporcional à sua prevalência, e o número de
indivíduos suscetíveis2.
De fato, surtos de doenças infecciosas acabam sendo reduzidos, pois o número de
indivíduos suscetíveis diminui. Portanto, uma opção seria implementar
intervenções para proteger mais efetivamente indivíduos suscetíveis.
Idealmente, estes esforços envolveriam a vacinação, que ainda não é uma
possibilidade real no momento de controlar a disseminação do SARS-Cov-2.

A intensidade da transmissão também dependerá do ônus da infecção viral e do tempo para eliminá-la. Portanto, outra possibilidade é aplicar intervenções que reduzam o tempo de eliminação de vírus em pessoas infectadas, diminuindo o risco de transmissão e, consequentemente, também diminuindo o número de pessoas infectadas. Tais intervenções para a COVID-19 exigiriam tratamento, como geralmente é feito para doenças respiratórias agudas graves, mas os problemas ainda permanecem. Primeiro, existe uma potencial transmissão durante o período de incubação do vírus, ou seja, transmissão antes do início dos sintomas, quando as pessoas normalmente não entram no regime de tratamento, e o período médio de incubação foi estimado em 5,2 dias (IC95%: 4,1 – 7,0 dias)4. Além disso, há evidências de indivíduos assintomáticos capazes de transmitir o SARS-Cov-2, mas a proporção de casos assintomáticos ou a intensidade da transmissão destes casos permanece uma questão em aberto6. O fato é que a transmissão antes dos sintomas ou mesmo em indivíduos assintomáticos torna o controle ainda mais difícil. Segundo, a intervenção direcionada envolveria regimes específicos de tratamento medicamentoso, que ainda não estão disponíveis devido ao recente surgimento do SARS-Cov-2. Além disso, testes de diagnóstico, especialmente aqueles rápidos, com níveis adequados de sensibilidade e especificidade serão bastante úteis na implementação de intervenções direcionadas.

A força da infecção também depende do número de interações
pessoa a pessoa em suas rotinas normais e também de como estas interações
ocorrem. Neste momento, a maioria das recomendações para a população em geral
para evitar a infecção pelo SARS-Cov-2 depende de alterações nas rotinas
sociais e individuais, implementando a quarentena sob suspeita ou detecção de
infecção, evitando eventos ou reuniões lotadas de médio a grande porte e também
aplicando regularmente práticas de higiene ou estabelecer normas de interação
social que evitem contato próximo. Além disso, desencorajar as viagens reduz a
mobilidade e, consequentemente, o risco de importação e disseminação de casos.
Além disso, após a detecção de casos importados, o isolamento pessoal e o
rastreamento de contatos também são importantes para controlar novas explosões
de casos, mas os resultados da simulação mostram que um controle eficaz exigirá
que pelo menos 70% dos contatos sejam rastreados, se o número de reprodução
básico for igual a 2,57.Curiosamente,
Fraser, et al. mostraram que o
rastreamento de contatos também ajuda a determinar a proporção de casos
assintomáticos8.

Reduzir a força da infecção, no entanto, pode prolongar a
duração da epidemia, mesmo ao reduzir os picos9, 10. Isso acontece com novos
patógenos, como o SARS-Cov-2, uma vez que grande parte da população pode ser
considerada de risco ou suscetível. Estas medidas rigorosas para evitar a
transmissão reduzem o pico da epidemia, mesmo que sua duração demore, para
níveis diários ou semanais, o que permite às unidades de saúde gerenciar o
atendimento e o tratamento do paciente. Portanto, reduzir picos epidêmicos
evita uma sobrecarga no sistema de saúde para lidar adequadamente com a crise.

Em termos de morbidade, é claramente necessária atenção a casos graves e o risco de morte em pessoas infectadas pelo SARS-Cov-2. A taxa geral de mortalidade de casos da COVID-19, dada pela razão entre o número de mortes e o número de casos confirmados, pode parecer pequena, mas observamos que os casos de morte estão concentrados em idosos, ao estratificar todos os casos que levam a mortes por faixa etária. Na Itália, entre as pessoas falecidas que foram infectadas com o SARS-Cov-2, mais de 75% tinham 75 anos ou mais11.

Em países com grandes disparidades sociais e iniquidades em saúde, como o Brasil, grande parte da população recebe atenção subótima no sistema público de saúde. Considerando a urgência da crise da COVID-19, um foco importante também deve ser colocado no planejamento de um controle mais eficaz para reduzir a carga, especialmente casos graves e mortes, nas populações mais vulneráveis.

Notas

1. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Coronavirus disease 2019 (COVID-19) – Situation Report 56 [online]. World Health Organization. 2020 [viewed in 20 March 2020]. Available from: https://www.who.int/docs/default-source/coronaviruse/situation-reports/20200311-sitrep-51-covid-19.pdf

2. KEELING MJ and ROHANI P. Modeling Infectious Diseases in Humans and Animals. Princeton: Princeton University Press, 2007.

3. WU, J.T., LEUNG, K. and LEUNG, G.M. Nowcasting and forecasting the potential domestic and international spread of the 2019-nCoV outbreak originating in Wuhan, China: a modelling study. The Lancet [online]. 2020, vol. 395, no. 10225, pp. 689-697 [viewed in 20 March 2020]. DOI: 10.1016/S0140-6736(20)30260-9. Available from: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)30260-9/fulltext

4. LI, Q., et al. Early Transmission Dynamics in Wuhan, China, of Novel Coronavirus–Infected Pneumonia. N Engl J Med. [online]. 2020 [viewed in 20 March 2020]. DOI: 10.1056/nejmoa2001316. Available from: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2001316

5. ZHANG S., et al. Estimation of the reproductive number of novel coronavirus (COVID-19) and the probable outbreak size on the Diamond Princess cruise ship: A data-driven analysis. Int J Infect Dis. [online]. 2020, vol. 93, pp. 201-204 [viewed in 20 March 2020]. DOI: 10.1016/j.ijid.2020.02.033. Available from: https://www.ijidonline.com/article/S1201-9712(20)30091-6/fulltext

6. ROTHE, C., et al. Transmission of 2019-nCoV Infection from an Asymptomatic Contact in Germany. N Engl J Med. [online]. 2020, vol. 382, no. 10, pp. 970-971 [viewed in 20 March 2020]. DOI: 10.1056/NEJMc2001468. Available from: https://www.nejm.org/doi/10.1056/NEJMc2001468

7. HELLEWELL, J., et al. Feasibility of controlling COVID-19 outbreaks by isolation of cases and contacts. Lancet Glob Health [online]. 2020, vol. 8, no. 4, pp. e488-e496 [viewed in 20 March 2020]. DOI: 10.1016/S2214-109X(20)30074-7. Available from: http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2214109X20300747

8. FRASER, C. Factors that make an infectious disease outbreak controllable. Proc Natl Acad Sci. [online]. 2004, vol. 101, no. 16, pp. 6146-6151 [viewed in 20 March 2020]. DOI: 10.1073/pnas.0307506101. Available from: https://www.pnas.org/content/101/16/6146

9. ADIGA, A., et al. Disparities in spread and control of influenza in slums of Delhi: findings from an agent-based modelling study. BMJ Open [online]. 2018, vol. 8, no. 1, e017353 [viewed in 20 March 2020]. DOI: 10.1136/bmjopen-2017-017353. Available from: https://bmjopen.bmj.com/content/8/1/e017353

10. ANDERSON, R.M., et al. How will country-based mitigation measures influence the course of the COVID-19 epidemic? The Lancet [online]. 2020, vol. 395, no. 10228, pp. 931-934 [viewed in 20 March 2020]. DOI: 10.1016/S0140-6736(20)30567-5. Available from: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)30567-5/abstract

11. REMUZZI, A. and REMUZZI, G. COVID-19 and Italy: what next? The Lancet [online]. 2020 [viewed in 20 March 2020]. DOI: 10.1016/S0140-6736(20)30627-9. Available from: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)30627-9/abstract

Referências

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Traduzido do original em inglês por Lilian Nassi-Calò.

VILLELA, D.A.M. O valor da redução dos picos epidêmicos da COVID-19 para respostas mais efetivas à saúde pública [Originalmente publicado como editorial na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical vol. 53] [online]. SciELO em Perspectiva, 2020 [viewed ]. Available from: https://blog.scielo.org/blog/2020/03/20/o-valor-da-reducao-dos-picos-epidemicos-da-covid-19-para-respostas-mais-efetivas-a-saude-publica/



Fonte: O valor da redução dos picos epidêmicos da COVID-19 para respostas mais efetivas à saúde pública [Originalmente publicado como editorial na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical vol. 53]

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