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Museu da liturgia ausente | a.muse.arte

Museu Da Liturgia Ausente | A.muse.arte

Museu da Liturgia
Rua Jogo de Bola, 15
Tiradentes (MG), Brasil 

Um museu que se diz “da liturgia” cria a expetativa de interpretar o culto, de interpretar o sentido dos rituais e de os relacionar com os princípios teológicos que os fundamentam, de justificar a forma e a função das alfaias. Cria a expetativa de uma abordagem antropológica na elucidação dos fenómenos sociais relacionados com a religiosidade. 

Museu da Liturgia.
Brasil, Tiradentes (MG)

O museu, inaugurado em 2012, ocupa a antiga casa paroquial, adjacente ao edifício da Câmara e nas proximidades da igreja matriz de Santo António. O acervo é constituído por cerca de 420 peças do período colonial mineiro, provenientes da paróquia de Santo António e totalmente restauradas. 

Pátio
Museu da Liturgia
Brasil, Tiradentes (MG)

O projeto adaptação da antiga casa paroquial a museu, incluiu obras de restauro, adaptação e ampliação do edificado pré-existente. Foram mantidas as paredes mestras de taipa, mas as divisões internas em alvenarias foram demolidas, criando três amplos espaços expositivos, a que se acrescentaram uma estrutura para a instalação da receção, serviços administrativos e áreas de apoio ao público, junto ao edifício principal, e um anexo para a reserva técnica e para o serviço educativo

Pátio
Museu da Liturgia
Brasil, Tiradentes (MG)

O pátio externo pretende ser um espaço de acolhimento e reflexão que, à semelhança do adro, defina um espaço intermédio entre os mundos profano e sagrado. Junto ao muro de pedra, também restaurado, erguem-se sete totens, formalizados como confessionários estilizados, nos quais, ao sentar, é possível ouvir salmos, provérbios, trechos do Genesis, Eclesiastes e uma trilha sonora composta para o museu por Marco António Guimarães. Há, ainda neste espaço, uma série de instalações conceptuais que, embora remetendo para uma simbólica religiosa, não são descodificados: a mesa com treze lugares, dispostos num dos lados, evoca a Última Ceia, mas apresenta no tampo uma linha do tempo com a cronologia do museuda região e da liturgia católica; uma espiral de pedras inspira-se nos labirintos medievais. 

No átrio de entrada no museu, a cidade de Tiradentes está representada entre a tradição e a modernidade, através de um padrão que, no chão, reproduz os tapetes de serragem elaborados por ocasião de festas religiosas e de uma trilha vertical, em cujos monitores passam imagens de celebrações filmadas na região. Neste espaço, é feita a ligação entre os pisos térreo e piso superior. O piso térreo é ocupado pelos núcleos “Liturgia da Palavra” e “Eucaristia e Páscoa”; o superior, “Sacramentos e Sacramentais”, “Devoção Popular” e “Gestos Litúrgicos”. 

Núcleo “A liturgia da palavra”
Museu da Liturgia
Brasil, Tiradentes (MG)

A Liturgia da Palavra é o momento da celebração em que se escuta trechos da Bíblia. Na celebração da missa, inclui vários momentos sequenciais: leituras do Antigo e Novo Testamento; Evangelho; salmo responsorial; aclamação; homilia; profissão de fé; oração dos fiéis. Compreende-se, por isso, no primeiro núcleo, a presença de missais e respetivas estantes. Em contrapartida, os paramentos, planificados sobre o fundo das vitrinas, não têm uma relação aparente – fazem parte do ritual da celebração da missa, mas não especificamente desta parte –, nem é esclarecida a sua função nesta parte do discurso expositivo. A justificação de que “ajudam a criar a atmosfera adequada para a recepção da palavra […] oferecida como guia para iluminar a vida” (Museu da Liturgia, 2012, p. 38) é pouco convincente. Também é muito redutora a ideia de utilizar objetos, com um sentido próprio muito específico, apenas para criar um ambiente.  

Núcleo “Eucaristia e Páscoa”
Museu da Liturgia
Brasil, Tiradentes (MG)

A sala mais ampla, correspondendo ao antigo porão da casa, corresponde ao principal sacramento do catolicismo e a um momento crucial do ano litúrgico no núcleo “Eucaristia e Páscoa”. Talvez tivesse preferível a designação de “ciclo da Páscoa”, mais abrangente, em vez de Páscoa: a urna do Santíssimo, exposta à entrada, é utilizada para a reserva do Santíssimo Sacramento em Quinta-Feira Santa e, portanto, num dos dias do tríduo pascal que antecede a Páscoa.  

Núcleo “Eucaristia e Páscoa
Museu da Liturgia
Brasil, Tiradentes (MG)

A sala é dominada pela presença de duas enormes vitrinas de mesa, onde se aglomeram, numa, castiçais e candelabros de prata e, na outra, tocheiros e castiçais de estanho e madeira. O artifício de utilizar na estrutura de suporte o mesmo material do chão, não impede a perceção de uma museografia demasiado pesada. A altura da bancada é adequada aos castiçais de altar, mas os tocheiros deviam ser colocados a uma cota baixa, rente ao chão. Por outro lado, mesmo sendo adequada a castiçais, neste espaço com um pé direito baixo, obriga que a maioria dos objetos quase chegue ao teto e aos projetores que neles incidem uma luz direta e excessiva. “A luz é utilizada não apenas como elemento ornamental, mas como instrumento de transformação que ajuda a desvelar o Verbo latente, induzindo à ação, à criação e à recriação do mundo, das coisas e de nós mesmos” (Museu da Liturgia, 2012, p. 38). No caso das pratas, o excesso de luz não é problemático em termos de preservação material. Contudo, os brilhos que provoca tornam-se desagradáveis e ofuscantes, perturbando a visualização dos objetos. 

Os cálices, píxides, turíbulos, navetas, dispersam-se nas restantes vitrinas espalhadas pela sala, sem leitura, sem contexto, sem informação adequada. Nada, aqui, interpreta o mistério eucarístico ou o sentido da Páscoa, nem esclarece o uso e função das alfaias na liturgia. 

Núcleo “Sacramentos e Sacramentais
Museu da Liturgia
Brasil, Tiradentes (MG)

No piso superior, o núcleo “Sacramentos e Sacramentais” expõe, de facto, objetos utilizados nos sete sacramentos (concha de batismo, confessionário, recipientes dos Santos Óleos), outros relacionados com os sacramentais (pias de água benta) e objetos particulares (crucifixos e imagens da Paixão de Cristo). Porém, mais uma vez, fica por esclarecer o significado de uns e outros.  

Núcleo “Devoção Popular”
Museu da Liturgia
Brasil, Tiradentes (MG)

O núcleo “Devoção Popular” inclui, sobretudo, objetos processionais: imagens de santos, algumas delas de roca; atributos de santos, como resplendores e diademas; adornos das imagens, como pulseiras, brincos e anéis: varas de pálio, lanternas e cruzes processionais; ex-votos.  Destaca-se a presença de Sant´Ana Mestra, uma das principais padroeiras de paróquias de irmandades na região de Minas Gerais, e a escultura articulada de São Jorge com o escudo, à escala natural, e que costumava sair na procissão do Corpo de Deus montado a cavalo. Encontra-se, aqui, o indício de uma boa prática no âmbito da relação entre o museu e a comunidade, dado que os objetos aqui expostos continuam ao serviço devocional e podem transitar da exposição para a festa em que foi usado, numa benéfica ambivalência que contribui para reforçar a memória e a tradição. Mas é, também, aqui que a museografia provoca um equívoco: ao apresentar, numa bancada sob pinturas de ex-voto, um conjunto de mãos avulsas sugere tratar-se igualmente de peças votivas, quando, afinal, se trata de peças avulsas recuperadas de imagens de roca. 

Instalção multimédia “Gestos litúrgicos
Museu da Liturgia
Brasil, Tiradentes (MG)

O núcleo intitulado “Gestos litúrgicos” consiste num espaço multimédia, com uma banda sonora mais audível do que nos restantes pontos do percurso e imagens projetadas num mosaico de monitores, mostrando fragmentos da gestualidade simbólica no âmbito da liturgia: mãos erguidas ou postas em oração, joelhos fletidos, cabeças baixas em sinal de reverência. Também, “o, sem o aporte de explicações ou referências a seus significados específicos” para que o visitante possa “contemplar, fora do lugar tradicional, os sinais que conduzem à comunhão do mistério, de forma a experimentá-lo como uma celebração, e não como catequese” (Museu da Liturgia, 2012, p. 38). 

Há pontos positivos a registar: fazer sair estes objetos dos espaços fechados das sacristias, ou dos anexos às igrejas, e colocá-los ao alcance do nosso olhar; o restauro das peças; o refrescamento da museografia; a utilização de tecnologia interativa. O projeto, tal como é descrito no catálogo (Museu da Liturgia, 2012) é interessante e, se tivesse cumprido os propósitos aí descritos poderia ter sido um bom museu de liturgia.  

É um museu com espaços agradáveis, que procurou usar uma linguagem moderna e esquivar-se aos convencionalismos da museografia da arte convencional.  Como afirma a diretora geral do projeto, Eleanora Santa Rosa: “O DNA do Museu da Liturgia está […], sobretudo, na forma de sua estruturação, de sua compreensão, da montagem dos conjuntos dos materiais que o compõem, numa perspectiva aberta e plural, que articula recursos expositivos atualizados e tratamento expográfico inovador e ousado” (Museu da Liturgia, 2012, [p. 13]). A museografia – sobretudo quando é demasiado impositiva e se lhe pode apontar alguns erros grosseiros – não é, só por si, uma garantia de competência comunicacional e de eficácia na mediação dos acervos.  

Embora a liturgia seja uma manifestação externa do culto religioso, remete para referências conceptuais e intangíveis que requerem apoios à leitura e à construção de conexões entre os objetos expostos e destes com a lógica do discurso museológico. Este é um processo dinâmico, no sentido em que acompanha as formações e alterações da sociedade. O museu, centrado na liturgia e nas tradições religiosas da comunidade, lida com o conceito de sagrado e, também, com a construção diacrónica do tempo e do espaço. No entanto, deparamo-nos com um espaço cristalizado, repetindo fórmulas arcaicas, mantendo uma lógica arcaica de agrupamentos por tipologia de materiais ou de técnicas, e, sobretudo, sem competências ao nível da interpretação e comunicação.  

A opção por criar uma exposição mediatizada resultou igualmente incipiente, onde o aparato tecnológico não foi acompanhado pela introdução de conteúdos relevantes, nem foi explorado nas suas amplas valências de interação e modulação. 

Atendendo ao teor do museu, era expetável um museu de território, com capacidade de apresentar o fenómeno religioso e de refletir acerca do seu impacto no grupo social em que se insere, contribuindo para incrementar o sentimento de pertença junto dos locais e potenciar a perceção do lugar junto dos que lhe são estranhos.  Era, pelo menos, expetável que o museu, sendo de liturgia, conseguisse explicar o sentido do ritual. E também isso não foi possível, através de uma museografia escolhida ao acaso do efeito decorativo, à ausência de um suporte textual que facilite a leitura do exposto; à junção de objetos por outros critérios que não o de lhes realçar o sentido, à exposição básica de peças sem criar analogias nem sugerir contextos significantes. Trata-se, eventualmente, de um museu de arte sacra, porque a liturgia não fica explícita; ou, talvez, nem seja um museu de arte sacra, porque esta também não é convenientemente elucidada no seu significado e na sua funcionalidade religiosa. 

No catálogo do museu, Eleonora Santa Rosa, diretora geral do projeto, afirma que:  

O desafio de não criar mais um museu de arte sacra ou de mera e estrita exibição de coleção, mas de construir um espaço público aberto, de imersão e transcendência, de aprendizado e fruição, de beleza estética e densidade cultural, foi cumprido  (Museu da Liturgia, 2012, [p. 13]). 

Se o desafio era esse, dificilmente se dirá que foi cumprido: não proporciona uma experiência imersiva, não leva à transcendência, não favorece a aquisição de conhecimento. Tão pouco estimula a fruição estética porque o modelo expositivo não realça a beleza ou a simplicidade do objeto. 

Este é um museu que, apenas, poderia ter sido e onde a liturgia está muito ausente.

Referência bibliográfica:
Museu da Liturgia (catálogo). (2012). Disponível em: 
https://docs.wixstatic.com/ugd/c03106_765b4c76e0e84f4f8373c7b846d9f8ec.pdf 

Nota: Dado que, no museu, não é permitido tirar fotografias, o texto foi ilustrado por imagens disponíveis no sítio eletrónico da AF&T Associados:  http://aftassociados.com.br/content/architect/projetos_institucionais_museu_liturgia.html Exceptua-se a última, acedida em http://www.eav.eng.br/portfolio/2012-museu-da-liturgia/ 


Fonte: Museu da liturgia ausente | a.muse.arte

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