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Hans Ulrich Gumbrecht: Presença, “presente amplo” e Stimmung

Hans Ulrich Gumbrecht: Presença, “presente Amplo” E Stimmung

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Hans Ulrich Gumbrecht é um teórico literário de formação, professor emérito de literatura comparada na Universidade de Stanford, onde ocupa a cadeira Albert Guérard. A figura e a obra de Gumbrecht encontram um lugar privilegiado dentro do espaço acadêmico brasileiro, sendo que tal afirmação pode ser confirmada empiricamente pela considerável frequência com que Gumbrecht costuma se deslocar ao Brasil para a participação em seminários, congressos e outras atividades acadêmicas.

O leitor brasileiro que anseia o contato com as ideias do professor e crítico literário, encontra disponível diversos artigos e entrevistas publicadas em periódicos nacionais voltados às humanidades e as artes, e também, traduções de algumas obras que alcançam todos os eixos temáticos de seu trabalho intelectual[1].

No interior do vasto e abrangente pensamento de Hans Ulrich Gumbrecht é possível encontrar interessantes reflexões que circunscrevem diferentes campos das humanidades, tais como, os estudos literários, a historiografia, e a filosofia. Além, de suas preocupações a respeito das condições implicadas nos processos que envolvem a constituição, exposição e percepção da experiência nos campos da cultura do século XXI. Neste espaço, pretendo apresentar uma introdução à algumas ideias que envolvem sua produção intelectual, com destaque ao paradigma da Presença, ao conceito de Stimmung e a sua hipótese de uma temporalidade na qual o cronótopo do “presente amplo” determina nossa experiência, cultura e linguagem no mundo contemporâneo.

Nessas acepções, tomo como finalidade da discussão a maneira como a relação entre a emergência de uma construção temporal enfática no privilégio ontológico do presente, a possibilidade de se apreender climas, atmosferas e ambientes a partir do desvelar próprio das materialidades do mundo, e a dimensão da experiência estética, pode nos auxiliar a entender as inéditas necessidades epistemológicas do conhecimento histórico e apontar caminhos que reforcem nossa relação com o passado, esvaziada tanto pela historicidade moderna, centrada no paradigma do sujeito/objeto e no ser historicamente consciente, como também pelo paradigma da representação em crise, evocado no conjunto de reflexões que integram a “virada linguística”.

A extensa obra literária de Gumbrecht é marcada, em boa medida, por aquilo que o autor denominou de “Produção de Presença”, ou seja, a proposta de “uma relação espacial com o mundo e seus objetos” (GUMBRECHT, 2010, p.13). A preocupação de Gumbrecht advém de uma cultura da “produção de sentido” hegemônica na estrutura epistemológica ocidental, centrada na interpretação e representação dos fenômenos, para além dos aspectos físicos de sua materialidade. Trata-se de refletir sobre as circunstâncias nas quais as humanidades e as artes operam a fim de produzirem um conhecimento sobre a realidade histórica no tempo presente e, de fornecer uma alternativa epistemológica distinta das fundadas no desenrolar da modernidade, com o paradigma cartesiano, o historicismo, e com a hermenêutica. A presença, portanto, faz referência ao próprio desvelar das coisas do mundo, a imediaticidade dos fenômenos, a substância, ao que ocupa espaço, aquilo que estimula nossa corporeidade e nos coloca em sintonia com o mundo, sem que necessariamente seja estabelecida uma relação entre significado e significante.

Gumbrecht fornece um bom exemplo para compreendermos a dimensão prática das tensões entre a produção de sentido e a produção de presença:

É a isso que nos referimos como “teatro”, a expectativa de que os corpos dos atores no palco representem algum “significado”. Contudo, ao mesmo tempo, há uma clara fascinação pelos corpos no palco como uma presença não relacionada com o significado (GUMBRECHT, 2016, p.167).

As pretensões de Gumbrecht não estão relacionadas a condução de um movimento epistemológico que se apresente como “anti-hermenêutico”, mas em deslocar de seu lugar privilegiado de acesso ao passado, o pressuposto metafísico de que a dimensão material do mundo é incapaz de expressar o plano fenomenológico da vida em sua devida complexidade. Como expressa em Produção de Presença (2010): “Em última análise, o que este livro defende é uma relação com as coisas do mundo que possa oscilar entre efeitos de presença e efeitos de sentido” (GUMBRECHT, 2010, p.15).

Em seu livro Nosso amplo presente (2015), Gumbrecht se propõe a observar de forma mais minusciosa a transição de uma construção social do tempo denominada por ele de “cronótopo historicista”, para uma relação com a temporalidade cuja as nossas experiências, linguagens e atos são forjadas por uma percepção ampla do presente, na qual o futuro se apresenta cada vez mais como um horizonte indisponível e o passado insiste em permanecer presente.

Para Gumbrecht, o “cronótopo historicista” refere-se a uma estrutura temporal característica da modernidade, no período que Reinhart Koselleck descreveu como Sattelzeit, uma experiência do tempo que possibilita a manifestação de uma estrutura existencial do ser marcada pela percepção processual, linear e progressiva da história, em uma dinâmica na qual “a diferença entre experiência e expectativa aumenta progressivamente” (KOSELLECK, 2006, p.314).

A modernidade também estaria marcada pela formação de um campo epistemológico que se articula nos embates entre a possibilidade e impossibilidade de apreensão e representação das coisas do mundo mediante elaborações poéticas regidas metodologicamente. Nessas acepções, o tempo histórico, típico do conceito moderno de história, interessa para Gumbrecht como uma espécie de estrutura, propícia a se desenvolver reflexões sobre de que maneira a experiência do tempo condiciona o fazer historiográfico e as relações de uso e aprendizado com o passado na realidade.

A impossibilidade de relações entre os sujeitos e o mundo, o esquecimento do real, a crise de representação, o distanciamento entre as palavras e as coisas, são pontos fundamentais nos escritos de Gumbrecht. A percepção historicista da temporalidade permitiu uma abertura para se pensar os saberes em termos de um observador de segunda ordem, uma autorreflexão do próprio processo de produção do conhecimento, que é concebida através da falta de sentidos e significados ontológicos compartilhados capazes de expressar e compreender as experiências inéditas da modernidade. Nesse sentido, a estrutura epistemológica do Ocidente desde o século XIX, de acordo com Gumbrecht, estaria fixada na observação de segunda ordem, na qual o sujeito torna-se seu próprio objeto.

O que nos interessa aqui, são as articulações que Gumbrecht realiza entre a produção de presença e o cronótopo do “presente amplo”, numa discussão que perpassa pelas possibilidades epistemológicas disponíveis aos campos das humanidades e das artes dentro de uma temporalidade que reorganiza os sentidos, linguagens e coisas que estão lançadas no mundo da vida. Dessa forma, Gumbrecht dispõe a respeito das tensões epistemológicas que se desenrolam nesse novo cronótopo, de um lado entre um paradigma de relação espacial com o mundo e uma crítica cultural melancólica frente a simultaneidade de experiências do passado no presente, e de outro lado, a insistência na estrutura epistemológica baseada no paradigma da representação:

No nosso presente, a disposição epistemológica para modelar uma figura de autorreferência que esteja mais solidamente enraizada no corpo e no espaço se depara com um desejo que emergiu como reação a um mundo determinado por uma excessiva ênfase na consciência; trata-se de um desejo que, conforme vimos, encontrou tom e expressão no traço melancólico da crítica cultural. Então, dentro do novo presente em expansão existem sempre duas dinâmicas, atraindo para sentidos opostos e formando, simultaneamente, um campo de tensão. De um lado, está a insistência na concretude, na corporalidade e na presença da vida humana, em que o eco da crítica cultural se funde com os efeitos do novo cronótopo. Tal insistência se opõe à espiritualização radical, que se abstrai do espaço, do corpo e do contato sensorial com as coisas-do-mundo – é o “desencantamento” implicado no “processo de modernização” (GUMBRECHT, 2015, p.17).

A argumentação de Gumbrecht em seu diagnóstico sobre a temporalidade contemporânea envolve diversas questões que cercam o processo de globalização incisivo no século XXI e que cada vez mais são capazes de interferir sobre as relações humanas, como as mídias digitais e as incertezas em relação as funções e a prática das formas de compreensão da experiência na existência mundana. Gumbrecht enxerga nesse emaranhado de fenômenos que definem grande parte dos contornos da experiência do tempo contemporânea, uma abertura na temporalidade para uma reorganização ontológica e epistêmica capaz de reunir e sedimentar experiências sem a preocupação em constituir um regime de signos estruturado no paradigma da representação. Portanto, o novo cronótopo, que aos poucos ganha suas características como construção social do tempo, estaria intimamente relacionado a indução de um desejo de presença, de proximidade com os fenômenos, da substância, da materialidade do mundo da vida, como maneira de nos colocar frente a alteridade, e conferir espessura as oportunidades de ter um envolvimento intenso, sensorial e corpóreo com o passado.

As considerações de Gumbrecht a respeito da Stimmung também se localizam nessa encruzilhada epistemológica descrita anteriormente, ou seja, uma alternância nos pressupostos básicos de entendimento e relacionamento entre a linguagem e a realidade extralinguística, que o autor caracteriza como “ontologia da literatura”; nas palavras de Gumbrecht:

O que quero dizer com ‘ontologia da literatura’ é o conjunto de modos fundamentais como os textos literários – enquanto fatos materiais e enquanto mundos de sentido – se relacionam com as realidades que existem fora deles (GUMBRECHT, 2014, p.10).

Para o autor, o termo em língua alemã Stimmung coloca-se como um conjunto de pressupostos dentro dos estudos literários capaz de descentralizar as tensões e contrastes entre as discussões que atribuem demasiada ênfase no paradigma da representação (como o desconstrucionismo e os estudos culturais), “ao contrário, uma ontologia da literatura que depende de conceitos resultantes da esfera do Stimmung não põe o paradigma da representação no centro da questão” (GUMBRECHT, 2014, p.14). Aqui, Gumbrecht busca entender a literatura num vislumbre histórico-presencial, como parte integrante da vida, em sua forma enquanto coisa do mundo material e essencialmente histórica, possuindo assim ambientes afetivos e experiências características, advindas de uma historicidade intrínseca a cada obra.

O termo em língua alemã Stimmung, de difícil tradução para a língua portuguesa, está relacionado a emergência de atmosferas, climas, ambientes, nuances, tonalidades afetivas e estados de espírito, caracterizando horizontes sentimentais construídos historicamente a partir de determinadas experiências de uma temporalidade, suficientes em alterar nosso envolvimento com as coisas do mundo em um espaço fracionário do tempo histórico, sendo assim determinantes da própria condição existencial humana. A noção de Stimmung, no pensamento de Gumbrecht possui uma profunda aproximação da ideia de produção de presença, no momento em que a expressão de climas e atmosferas deriva da superfície material, do curto espaço de tempo em que os fenômenos se apresentam em relação aos nossos corpos, da postura quieta e branda frente o desvelar inerente das coisas do mundo[2].

A experiência estética também assume um lugar importante nas reflexões de Gumbrecht como uma maneira vantajosa de contato com o mundo, hábil em potencializar nosso acesso aos efeitos de presença ao despertar e reunir sentimentos e afecções com o impacto e a intensidade de imagens, práticas performáticas, sonoridades e formas literárias, que atuam historicamente como Stimmung. Aqui, portanto, percebe-se que para Gumbrecht não há fronteiras definidas entre a experiência estética e a experiência histórica, mas sim uma relação de completude tanto no plano existencial, dos vivos, como no plano epistemológico, dos saberes.

Dessa maneira, as atmosferas, climas, tonalidades, e a experiência estética integram um modo de envolvimento com as materialidades do mundo menos voltado para a interpretação e metafísica dos fenômenos, e mais perto da proposta de uma imersão espacial em fragmentos do tempo histórico na qual os modos de relacionamento com a temporalidade, com os indivíduos e com os fenômenos, podem revelar questionamentos para o presente. No que tange a revigorar as formas de contato com passado no contemporâneo, elaborar poéticas necessárias a emergência de Stimmung, e a apresentar os sentimentos e afecções sedimentadas e em latência[3] no interior de um clima histórico, que estão sendo incorporadas e exteriorizadas pelos sujeitos, mas que também são potentes em representar situações ontológicas coletivizantes, não apreendidas pelo arcabouço teórico e metodológico já consolidado nas ciências humanas.

O pensamento de Gumbrecht, como espero ter sido possível demonstrar nas exposições anteriores, carrega em si um entusiasmo pelo que seria uma cultura da presença nas ciências humanas, escorrendo de um eixo teórico principal que se ramifica e que perpassa pelas condições do ser e dos saberes dentro de determinada temporalidade. Acredito que as contribuições de Gumbrecht para a Teoria da História e as humanidades em geral, devem ser valorizadas como eficientes para apresentar alguns entraves do tempo presente. A presença, o presente amplo, a experiência estética, e os horizontes histórico-afetivos são sintomas de um mundo que anseia pelo contato com a dimensão material da vida, preterir tais reflexões significa estar alheio as exigências ontológicas e epistêmicas do mundo contemporâneo.

Em suma, Gumbrecht, apresenta aos seus leitores uma abertura para atribuir consistência as dinâmicas que permeiam a realidade e a construção do conhecimento, sem a qual, as humanidades tornam-se apenas meio de reprodução de saberes, discursos, práticas e experiências, desinteressadas pelas oportunidades de suspensão da suposta universalização da experiência do tempo, de mover-se da inércia existencial extraída das estruturas temporais com ênfase no estatuto ontológico do presente, e de buscar no presente do passado refúgios que conferem espessura e empatia à diversos modos de existência.

 

 

 


REFERÊNCIAS

GUMBRECHT, Hans Ulrich. Produção de presença: o que o sentido não consegue transmitir. Tradução: Ana Isabel Soares. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed PUC-Rio, 2010.

                        . Atmosfera, ambiência e Stimmung: sobre um potencial oculto da literatura. Tradução: Ana Isabel Soares. 1.ed. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed PUC-Rio, 2014.

                        . Nosso amplo presente: o tempo e a cultura contemporânea. Tradução: Ana Isabel Soares. 1.ed. São Paulo: Editora Unesp, 2015.

                        . Serenidade, presença e poesia. Seleção e Tradução: Mariana Lage. Belo Horizonte: Relicário Edições, 2016.

KOSELLECK, R. Futuro Passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Tradução: Wilma Patrícia Maas e Carlos Almeida Pereira. Rio de Janeiro: PUC Rio/Contraponto, 2006.

 

 

NOTAS

[1]Dentre os livros traduzidos ao português estão: Modernização dos Sentidos (Editora 34, 1998), Em 1926 – Vivendo no limite do tempo (Record, 1999), As funções da retórica parlamentar na Revolução Francesa (Editora UFMG, 2003), Elogio da Beleza Atlética (Companhia das Letras, 2007), Produção de Presença: o que o sentido não consegue transmitir (Contraponto/Ed. PUC-Rio, 2010), Graciosidade e Estagnação: Ensaios escolhidos (Contraponto/Ed. PUC-Rio, 2012), Atmosfera, ambiência, Stimmung: sobre um potencial oculto da literatura (Contraponto/Ed. PUC-Rio, 2014), Depois de 1945 – Latência como origem do presente (Editora Unesp, 2014), Nosso amplo presente – o tempo e a cultura contemporânea (Editora Unesp, 2015), e Serenidade, presença e poesia (Relicário Edições, 2016).

[2]Sob a influência do filósofo alemão Martin Heidegger, o conceito de Gelassenheit é apresentado por Gumbrecht fixado nas compreensões de uma cultura da presença, como uma disposição existencial de calma, compostura e serenidade, para deixar as coisas do mundo se apresentarem em seu próprio desvelar imediato.

[3]O entendimento de latência em Gumbrecht refere-se “a uma presença, entendida como uma espécie de ‘passageiro clandestino’, que pode produzir efeitos e irradiar energia, ao mesmo tempo que escapa a possibilidade de ser identificada e apreendida” (GUMBRECHT, 2014, p.11).

 


Créditos na imagem: Imagem sem referência. Disponível em: https://revistacaliban.net/a-arte-e-a-vida-de-hans-ulrich-gumbrecht-123246dfcb)

SOBRE O AUTOR

Ricardo Mateus Thomaz de Aquino

É graduando em História pelo Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS) da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Tem interesse nas áreas de Teoria da História e História da Historiografia. Atua como bolsista voluntário no projeto de extensão HH Magazine: humanidades em rede, história pública democrática.

Fonte: Hans Ulrich Gumbrecht: Presença, “presente amplo” e Stimmung

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