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Corpos | HH Magazine

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– Vou ficar em casa – disse Raul Arizona. – São apenas 15 dias.

Sempre pragmático, fez uma rápida exposição aos vizinhos sobre a consciência crítica e coletiva que todos os habitantes deveriam ter. Aquele vírus não ficaria para sempre no mundo daquela cidade. O importante era o empenho com o isolamento. Raul Arizona havia se disposto a trabalhar em casa já que todo mundo assim o faria. Seduzido pela simplicidade da ação, Raul Arizona, nem mais cortejava as pessoas durante aqueles 15 dias, para que o deixassem absolutamente isolado. Desde o primeiro dia construiu em casa um armazém de alimentos. Em pouco tempo encheu todas as gavetas, estantes e geladeira com mercadorias que iam desde folhas de louro, caso resolvesse cozinhar uma feijoada completa, até galinhas vivas, já que os 15 dias poderiam virar 100 e ter em casa uma produtora de ovos era algo que lhe parecia proveitoso. No fim do terceiro dia, aquele espírito de comprometimento social e cuidado que ditava a preocupação com o outro desapareceu. Os mercados angustiados com a propagação do vírus avançaram nos preços já que para manter a paz há de colocá-la à venda. Na cidade que desde muito tempo se sabia da falência dos hospitais, apareceu como sinônimo de cidadania a preocupação com a superlotação e a sobrecarga dos serviços hospitalares. Renunciou-se a todo tipo de hábito social obcecados pela constatação de que a falta de remorso comum com os caminhos empoeirados da cidade, tornava-se, agora, poderoso discurso sobre os vergonhosos empreendimentos levados a cabo por décadas. Naquela altura a humanização era irmã gêmea da cumplicidade.

E desse jeito a cidade foi convidada a resolver a situação da proteção viral pelo controle dos corpos. Coronéis e baionetas nas ruas, multas, leis silenciadoras, isolamentos forçados, prisões para o bem comum, militarização, proibições de reuniões e manifestações, fechamento de fronteiras, vigilância ativa, decretos e mais decretos, suspensão de serviços educacionais, habitantes presos em suas próprias casas e vigiados por aplicativos, bem como, é verdade, invenções musicais de júbilo ao novo hábito de lavar as mãos. “Só temos duas escolhas”, diziam. “A primeira: que cada um aceite a instauração de um estado de exceção sem data para o término. A segunda: que todos morramos”. Um velho cigano ao ouvir o anúncio feito na praça central da cidade recordou de uma linha escrita em sânscrito nos velhos pergaminhos que havia trocado por peixinhos de ouro. De memória fraca e voz baixa balbuciou uma sentença.

– Toda biopolítica se converte em uma necropolítica.

Não foi ouvido por ninguém. Pegou sua cartola e um longo paletó xadrez, e sumiu em meio a borboletas vermelhas. Os habitantes ouviram a cidade e não o cigano. Era, pois, um caminho que não deixava outra solução. Raul Arizona, dono de uma fortuna advinda de vários negócios, comprou um enorme caminhão e mandou recheá-lo com todo tipo de mercadoria. As proibições da cidade não lhe afetavam. Assim, se tivesse que enfrentar o vírus, salvaria a si mesmo e poderia vender a nova preocupação por preço de diamante. “Não entrem em pânico”, diziam as mensagens advindas das caixas de som do caminhão. Só quando perceberam que os mercados estavam vazios e não havia nenhuma nova invenção vinda dos alquimistas de Marrakesh, os cidadãos da cidade entenderam a postura de Raul Arizona. Todo mundo ficou em casa, menos Raul Arizona que dançava pelas ruas ao som do silêncio.

No sábado seguinte, Pablo Concepção, um homem com muitas experiências acumuladas de suas andanças, vendia suas invenções em uma rua deserta. Nunca tivera um espaço fixo na cidade. Trabalhava nas ruas vendendo todo tipo de produtos para o hábito de fumar. Papelotes, fumo, pipas de madeira, moedores e alguns livros sobre os desfavorecidos do mundo.

– Ficar 15 dias em casa para um vendedor ambulante de invenções que tem na rua o seu sustento, pode parecer fabuloso e cidadão, mas é insuficiente para alimentar até mesmo as minhas recordações – suspirou Pablo Concepção.

Desde a tarde que anunciaram o projeto de contenção do vírus que vinha atacando desde o extremo leste até a pequena cidade, não havia uma única precaução que envolvesse a realidade de Pablo Concepção. Dele exigiam que não trabalhasse mais nas ruas e que evitasse usar os serviços de saúde, uma vez que estavam sobrecarregados. Até mesmo sugeriram que ele fizesse home office por causa do vírus.

– Vende as suas coisas pela internet – aconselhou Raul Arizona. – Hoje tudo é por lá, sentenciou o proprietário do enorme caminhão que a tudo vendia nas ruas.

Quem conhecia o Pablo Concepção, popular nas vias públicas da cidade, sabia que era boa gente e preocupado com os rumos do mundo. Agora, apesar disso, em vez de andar pensando em suas invenções ambulantes responsáveis pela sua subsistência teria que se preocupar com a quarentena. Falavam que ele tinha a cabeça quadrada e vaidosa por não pensar no dinamismo da cidade. Pablo Concepção não precisava nem cumprir com o solicitado, pois a polícia fazia por ele toda a intervenção necessária. Mas no primeiro dia que ficou em casa para atender aos anseios de toda cidade, silencioso e retraído, apenas imaginava como cuidaria de seus pais, um idoso e outra doente, sem poder trabalhar nas ruas em contato com as pessoas. Escutava na televisão que todos deveriam ficar em casa para cuidar dos velhos e dos adoentados. O que percebeu é que ficando todos em casa, todos isolados, todos comprando tudo de Raul Arizona, com o seu enorme caminhão, que atendia a todas as exigências que nasciam naquele momento, o velho e a adoentada de sua própria casa ficariam à mercê do fraco destino. Pablo Concepção se viu abandonado outra vez.

– Bem – lamentou Pablo Concepção. – Mais uma vez a cidade escolheu que Raul Arizona exista.

 

 

 


Créditos na imagem: Ilustração. Profa.Dra.Naiara Krachenski.

 

 

 

SOBRE O AUTOR

Thiago David Stadler

Doutor em História. Professor Adjunto do Colegiado de Filosofia da Universidade Estadual do Paraná campus de União da Vitoria. Contato: thibastadler@gmail.com

Fonte: Corpos | HH Magazine

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