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Até logo | HH Magazine

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Caracas, 08 de março de 19: Em razão da viagem de volta para o Brasil e pela correria com as diligências aqui em BH, não me dei conta que hoje é o Dia Internacional da Mulher. Perdi a chance de participar da marcha convocada no centro da cidade para lembrar o assassinato da Marielle e protestar contra a violência e opressão às mulheres. Bom, já era… Nessas circunstâncias, esse esquecimento ia me acontecer de qualquer jeito. Meu retorno ao Brasil foi muito cansativo e emocionalmente intenso. Eu não tinha cabeça para outra coisa que não minhas lembranças, minhas saudades e minhas expectativas daqui para frente.

Vou ser honesta… Eu não queria voltar, mesmo sabendo de todo o carinho, a parceria, o amor e as atividades que me esperavam no Brasil. Esses três messes e meio que eu passei no meu país acabaram sendo um dos períodos mais duros, intensos e difíceis que eu tenha experimentado na minha vida. Eu precisava acompanhar e viver um pouco do que os meus afetos vivem lá naquele cotidiano caótico e catastrófico, mas confrontado pelo espírito de resistência, solidariedade e alegria, muito caraterístico das pessoas do meu país. Não é coisa fácil lidar com a incerteza, com a ausência de horizontes, com super-viver na hora. Mas lá na Venezuela a gente ri, a gente compartilha, a gente chora, come e passa fome juntos e nos fazemos companhia nos contextos hostis.

Além do meu pai e do meu irmão Leonardo, na véspera da minha viagem, vários amigos próximos foram me visitar. Com certeza faltaram outros, mas o interessante foi o encontro, num mesmo lugar e momento, de pessoas que, embora tendo posições políticas diferentes, compartilham o fato de manterem uma atitude crítica, autêntica, coerente e insubornável na vida: a Flaca, Adrián, Jeudiel, Keymer, Eli, Ángel, Jaime, Milton… O encontro dxs não alinhadxs, kkkkk! Sem dúvida, foi uma reunião muito emotiva na qual prevaleceu a parceria e a possibilidade de nos encontrarmos na diversidade. Num país agoniado por uma polarização aniquiladora, a existência desses espaços é realmente um maravilhoso privilégio!

Como na maioria das casas na Venezuela, na nossa não tínhamos quase nada para oferecer salvo um pouco de café, mas o importante era aproveitar e desfrutar aquele momento. Meus amigxs foram livres, não tiveram nenhum impedimento para irem até minha casa. Levavam a presença e a disposição de compartilhar apenas a água, se o caso fosse. A Flaca, que chegou com o meu sobrinho, levou uns deliciosos “besitos de coco”, Adrián levou um Cheetos e um pouquinho de açúcar para o café, Jaime uma garrafinha pequena de cocuy que parecia mais do tipo da aguardente, eu dividi com o Milton mais uma garrafa de cocuy e o casalzinho chegou com uma torta de frango e uma omelete espanhola. Fomos realmente felizes!

Foi um dia tão feliz para mim. Eu até consegui conhecer a minha sobrinha Helena. Ela tinha data de nascimento prevista para doze de março e eu estava um pouco triste porque ia voltar para o Brasil sem conhecê-la. Mas olha só o maravilhoso presente! Ela adiantou a sua vinda para o mundo no dia quatro e eu consegui conhecê-la! Assim que saíram da clínica, o meu irmão (de vida) Camilo, a sua companheira e a minha sobrinha foram até o prédio onde eu moro para eu poder vê-los e me despedir. Eu chorei de emoção. Nunca vou esquecer esse gesto! Os três estavam muito bem! A Irene e a minha sobrinha tinham as bochechas vermelhas, saudáveis e o rosto de felicidade do Camilo era único!

Na manhã da minha vinda para o Brasil, enquanto arrumava as coisas para ir até o aeroporto, soubemos pelas redes sociais que Alí Domínguez estava morto, um dia depois dele haver aparecido numas condições muito aterradoras: desprendimento de dentes, poli traumatismos no rosto e perda de tronco encefálico. Alí era um jovem “quase” jornalista que não conseguiu obter o seu título de graduação por ter denunciado casos de corrupção por parte das autoridades da Universidade Bolivariana da Venezuela e, a partir desse momento, decidiu romper com o chavismo.

A última vez que houve notícias dele foi em 28 de fevereiro, após sair de uma reunião no jornal El Nacional. A sua família o procurava por seis dias. Tentaram registrar o desaparecimento, mas a polícia recusou receber a denúncia, sugerindo aos familiares irem procurar os órgãos de Inteligência. Depois de terem percorrido todos os hospitais, os familiares de Alí souberam que no Hospital Domingo Luciani haviam alguns pacientes não identificados; no entanto, os guardas impediram-lhes de entrar para conferir se algum desses pacientes era o Alí. Foi apenas em 05 de março, após a insistência de um irmão dele, que um dos guardas o deixou entrar e, bom… O Alí estava lá, naquelas condições que eu descrevi, e no dia 05 pela noite ele faleceu.

Fico pensando nas coisas que eu vivi nesses três meses no meu país, nas coisas que eu consegui fazer e as que ficaram pendentes. Fico grata com toda a solidariedade que eu recebi de muitas pessoas, tanto nas situações pessoais quanto nas acadêmicas: Da parceria com os meninos do Centro Nacional de História e do Arquivo Geral da Nação. Da incondicionalidade do pessoal da Hemeroteca Nacional que me ajudava a identificar materiais e davam dicas para eu encontrar fontes para a minha pesquisa – sem eles eu não teria conseguido muitas delas, sobretudo, quando a Hemeroteca só trabalhava até às 15hs por causa das dificuldades do transporte público. Da generosidade comovente das testemunhas ao compartilharem suas memórias sobre o 27 de fevereiro do ano de 1989, e com as quais eu agora fico vinculada e comprometida. Das histórias e vivências compartilhadas com xs meus adolescentes favoritxs que, junto com o meu filho, deram alegria ao meu cotidiano…

Enfim… Não consegui comprar a peça para arrumar o liquidificador da casa e também não consegui comprar a cola para eu arrumar as cadeiras quebradas junto com o meu pai. No entanto, consegui comprar vários pares de sapatos para o Aquiles e deixei três quilos de peixe que consegui comprar numa oferta na rua, três quilos de piranha por 10 mil BsS.

Ainda que eu não tenha conseguido fazer tudo o que eu pensava e que também não tenha conseguido deixar para minha família tudo o que ela precisava, acho que foi uma viagem proveitosa, plena e importante. Fiz o que pude fazer, num contexto muito difícil e hostil. Dei o que me foi possível dar em condições que nem davam para tanto assim.

Enquanto escrevo fico aguardando notícias da minha família. Não tenho conseguido me comunicar com ela. Apenas hoje pela manhã consegui receber uma mensagem do Ángel me dizendo que ontem pela tarde aconteceu um apagão e que não tinha certeza sobre quanto tempo duraria.

Vejo as notícias nos jornais internacionais. O apagão tem dimensões nacionais. De imediato lembro-me daquela nota de voz do trabalhador da Corpoelec[1], Elio Palacios, que circulou pelas redes sociais e que escutei junto com o Vitinho lá nossa casinha em Mariana. Fico com raiva! Nessa nota ele denunciava a situação de maltrato trabalhista com a qual a diretiva da empresa submetia os trabalhadores, os quais estavam mantendo jornadas de até trinta e oito horas contínuas de trabalho pela carência de profissionais técnicos suficientes (cenário bem comum nestes tempos no meu país). Ele também denunciava os altos níveis de corrupção que estavam acontecendo na empresa, das consequências disso na manutenção da maquinaria e, aliás, advertiu sobre a possibilidade de um colapso elétrico por causa dessa situação toda. O governo, ao invés de abrir uma pesquisa sobre os casos de corrupção denunciados pelo Palacios, mandou prendê-lo com o Sebin, a polícia política do Estado.

É muito triste reparar na situação de ruína em que se encontra o meu país hoje. O cenário da Corpoelec é bem similar com o cenário de outras empresas do Estado que, com o apagão, terminaram de se apagarem. Hoje todas as siderúrgicas estão paralisadas: A Planta Cassima já tem vinte meses sem funcionamento; Bauxilum, dezessete meses sem produzir alumínio; Sidor, sete meses sem produzir aço líquido; Venalum e Alcasa perderam todas as suas células operacionais… Os trabalhadores procuram se manter em pé, em luta pela recuperação dessas empresas…

Por enquanto, a cada dez minutos reviso o WhatsApp para ver se restabeleceram as conexões no meu país e consigo falar com o meu filho depois daquele “até logo” em Caracas.

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[1] Principal empresa elétrica da Venezuela.

 

SOBRE A AUTORA

Livia Vargas González

Venezuelana, militante feminista-marxista, filósofa e mestra em Filosofia e Ciências Humanas pela Universidade Central da Venezuela (UCV), é professora na Escola de Sociologia nessa mesma casa de estudos e, além disso, editora, formando parte do equipe editorial da Biblioteca Ayacucho, uma das mais importantes editoras da América Latina, bem como de El Perro y la Rana e Amalivaca Ediciones. O pensamento de Karl Marx, Jean Paul Sartre, Walter Benjamin e Daniel Bensaïd, fazem parte do seu repertório teórico fundamental, visando a construção de uma proposta teórico política que permita compreender e afrontar os desafios de nosso tempo. É autora do livro Entre libertad e historicidad. Sartre y el compromiso literario (Caracas, 2008), e de vários artigos acadêmicos e de divulgação.

Fonte: Até logo | HH Magazine

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