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Arte argentina no Palácio da Ajuda

Arte Argentina No Palácio Da Ajuda

Exposição “VII Mostra de Artistas Argentinos em Portugal”
Lisboa, Palácio Nacional da Ajuda, 20 mar. – 3 abr. 2019

Março foi o mês de Francofonia. A “Festa da Francofonia 2019”, organizada por um coletivo de países membros da OIF (Organização Internacional da Francofonia) com representação diplomática em Portugal (Andorra, Argentina, Bélgica, Canadá, Costa do Marfim, Egipto, França, Geórgia, Luxemburgo, Marrocos, Roménia, Senegal, Suíça e Tunísia), pretende dar a conhecer culturas do mundo francófono.

Exposição “VII Mostra de Artistas Argentinos em Portugal”
Lisboa, Palácio Nacional da Ajuda
Foto: MIR, 2019

Neste âmbito, a exposição “VII Mostra de Artistas Argentinos em Portugal”, sob a tutela da Embaixada da Argentina, país observador da OIF e coorganizador da Festa da Francofonia 2019, apresenta, no Palácio Nacional da Ajuda,  obras de 11 artistas contemporâneos, com diferentes linguagens, técnicas e suportes no âmbito das artes plásticas, numa seleção que se assume heterogénea e simplificada.

Os samurais totémicos de Pablo Amoedo, ponto fulcral e divergente do espaço, recebem-nos e, em simultâneo, vigiam-nos com a sua postura atarracada e quase ameaçadora.

Ana Giovinazzo
Exposição “VII Mostra de Artistas Argentinos em Portugal”
Lisboa, Palácio Nacional da Ajuda
Foto: MIR, 2019

Porém, o que, de imediato, nos desperta o olhar é o cromatismo dos objetos-esculturas de Ana Giovinazzo. A artista explora as potencialidades da resina, material difícil de trabalhar e que requer grande domínio técnico no processo de solidificação, mas com o qual obtém volumes geométricos de formas nítidas, bem definidas, transparentes, em cores vibrantes e intensas, no interior dos quais se descobrem linhas metálicas retas e curvas, ou indícios de cariz mais orgânico.

Teatro Colón, de Fernanda Piamonti
Exposição “VII Mostra de Artistas Argentinos em Portugal”
Lisboa, Palácio Nacional da Ajuda
Foto: MIR, 2019

Teatro Colón (detalhe), de Fernanda Piamonti
Exposição “VII Mostra de Artistas Argentinos em Portugal”
Lisboa, Palácio Nacional da Ajuda
Foto: MIR, 2019

Ao lado, surge o Teatro Colón, de Fernanda Piamonti, quase sugerido através de uma neblina escura, proporcionada pela técnica mista com alcatrão, grafito, terras. Numa linguagem expressionista, Fernanda Piamonti esconde a fachada de um dos mais emblemáticos monumentos de Buenos Aires, numa denúncia da poluição que escurece e destrói.

Lucrecia Orloff
Exposição “VII Mostra de Artistas Argentinos em Portugal”
Lisboa, Palácio Nacional da Ajuda
Foto: MIR, 2019

O teatro é, também, o objeto central nas litografias de Lucrecia Orloff. Apesar de seguir a técnica tradicional, Lucrécia Orloff adiciona apontamentos cromáticos e realces a ouro, num trabalho minucioso, de grande detalhe, tornando cada obra numa peça única.

Laura Benchetrit, por seu turno, usa a técnica da colagrafia sobre papel para criar fundos texturados, sulcados por traços angulosos que se intersecionam e expandem por toda a composição.

Pablo FlaiszmanExposição “VII Mostra de Artistas Argentinos em Portugal”Lisboa, Palácio Nacional da Ajuda
Foto: MIR, 2019

Fluir, de Pablo Flaiszman
Exposição “VII Mostra de Artistas Argentinos em Portugal”
Lisboa, Palácio Nacional da Ajuda

Outro gravador nesta exposição é Pablo Flaiszman, residente em Paris e cuja obra tem sido internacionalmente reconhecida e premiada, tendo o último prémio sido o Miroir de l’Art em 2018. Ensaiando os contrastes entre sombra e luz, claro e escuro, Flaiszman recria cenas quotidianas, instantâneos capturados que retratam vidas solitárias e melancólicas ou deixam adivinhar presenças ocultas em composições quase despovoadas.

Miguel Ángel Giovanetti
Exposição “VII Mostra de Artistas Argentinos em Portugal”Lisboa, Palácio Nacional da Ajuda
Foto: MIR, 2019

Em sentido oposto, está o abstracionismo geométrico e linear de Miguel Ángel Giovanetti, tão obsessivo quanto perfecionista. No conjunto de obras que aqui apresenta, o artista explora a figura do pentágono, que constrói e desconstrói, e as qualidades de cor e espessura da linha, numa linguagem quase suprematista, mas que recorta e dispersa em composições poligonais (fragmentos do pentágono) em que as cores vibrantes se equilibram com os vazios do papel deixado em branco.

Silvana Lacarra
Exposição “VII Mostra de Artistas Argentinos em Portugal”
Lisboa, Palácio Nacional da Ajuda
Foto: MIR, 2019

Ao lado, a obra de Silvana Lacarra regista outra obsessão na forma como trabalha os materiais que vão das madeiras nobres, como cerejeira, loureiro ou bordo, com termolaminados plásticos. Usa técnicas de marchetaria, explora a matéria, que verga, corta, talha, incrusta em suportes e combina cores e texturas, criando composições abstratas entre a bi e a tridimensionalidade.

Juan Andrés Videla
Exposição “VII Mostra de Artistas Argentinos em Portugal”
Lisboa, Palácio Nacional da Ajuda
Foto: MIR, 2019

Juan Andrés Videla, numa obra de pendor representacional e realista transporta-nos para uma paisagem suburbanas, despovoada e melancólica, quase diluída, um caminho que remete para os limites da cidade de Buenos Aires.

Cinthia Rched
Exposição “VII Mostra de Artistas Argentinos em Portugal”
Lisboa, Palácio Nacional da Ajuda
Foto: MIR, 2019

Cinthia Rched, a “artista Andariega” tem uma linguagem neoexpressionista. As pinturas de pequeno formato suportam camadas espessas, espatuladas e pinceladas saturadas de tinta a óleo. As suas paisagens são identificáveis, pelo tratamento meticuloso das texturas, dos brilhos, das cores, cuja paleta acompanha a obra, num contraste intencional entre a realidade concreta e a sua impressão abstrata.

Por fim, a obra de Patricia Szterenberg que – assumindo a subjetividade desta afirmação – se afigura a mais surpreendente neste conjunto. Pesquisa materiais e texturas que combina e integra em composições inesperadas e de grande criatividade. Tem, aqui, um livro de autor que inicia com num jogo de palavras: ao esconder a primeira sílaba da palavra “código”, fica “digo” e, de facto, “diz-se” ao longo das páginas espessas e matéricas onde o texto se articula à linguagem plástica.

Caderno de autor, Patricia Szterenberg
Exposição “VII Mostra de Artistas Argentinos em Portugal”
Lisboa, Palácio Nacional da Ajuda
Foto: MIR, 2019

Repete este padrão em dois painéis transparentes e suspensos, onde desenvolve um trabalho filigranado, feito em resina, que incorpora fragmentos de folhas impressas, pedaços de gaze e onde, por vezes, a linha se torna caligráfica.

Patricia Szterenberg
Exposição “VII Mostra de Artistas Argentinos em Portugal”
Lisboa, Palácio Nacional da Ajuda
Foto: MIR, 2019

Patricia Szterenberg
Exposição “VII Mostra de Artistas Argentinos em Portugal”
Lisboa, Palácio Nacional da Ajuda
Foto: MIR, 2019

O curador desta exposição, Arq. Marcial Sarrías, construiu um microcosmo da arte argentina, pondo em diálogo entre expressões plásticas e conceptuais, das mais realistas às mais abstracionistas, conciliando gravura, pintura, relevo e escultura. Como pano de fundo a estas conexões (e divergências) o contraste do cenário palaciano que lhe serve de fundo.

As soluções museográficas são as convencionais: plintos e suportes parietais. Porém, regista-se uma estratégia que permite a colocação de pinturas de grande formato e objetos pesados em suportes leves: a colocação de um saco (de areia?), preso à estrutura no reverso dos painéis, a fazer de contrapeso.

 

Exposição “VII Mostra de Artistas Argentinos em Portugal”
Lisboa, Palácio Nacional da Ajuda
Foto: MIR, 2019

Cada painel define o núcleo de um artista, à exceção de Pablo Amoedo e Patricia Szterenberg que ocupam o centro da sala. Para lá das tabelas junto a cada um dos objetos expostos, há uma ficha com a nota biográfica, fotografia e elenco das principais exposições individuais e coletivas de cada artista.

É uma pequena exposição dentro do grande espaço expositivo do Palácio Nacional da Ajuda (onde está também a “Transpor a forma prologar o uso: Porcelanas de Rita Filipe”). É uma exposição temporária de muito curta duração inserida na vasta programação da “Festa da Francofonia 2019”. É pena que a falta de divulgação não tenha contrariado circunstâncias, favorecedoras de alguma invisibilidade, porque, embora pequeno, este é um conjunto que vale a pena conhecer, despertando a curiosidade pelo panorama da arte contemporânea argentina.


Fonte: Arte argentina no Palácio da Ajuda

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