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A arte e o sagrado num simpósio de Museologia

A Arte E O Sagrado Num Simpósio De Museologia

Simpósio Internacional Museologia e Arte: Aspetos Materiais e Imateriais do Património
XIII Aniversário do Programa de Pós-Graduação em Museologia e Património (PPG-PMUS) / VIII Aniversário do Doutorado
Rio de Janeiro, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), Museu do Amanhã; Minas Gerais (cidades históricas de São João del Rei, Tiradentes, Congonhas e Ouro Preto)
1 a 5 de agosto de 2019

Cartaz do Simpósio
UNIRIO, 2019

O “Simpósio Internacional Museologia e Arte: Aspetos Materiais e Imateriais do Património” assinala o XIII Aniversário do PPG-PMUS e o VIII Aniversário do Doutorado, na UNIRIO.

Um encontro de investigadores portugueses e brasileiros nos domínios da museologia e da arte em torno do sagrado, assumindo as vertentes da tangibilidade e da intangibilidade, é uma oportunidade de reflexão sobre as confluências culturais entre Portugal e Brasil, unidos durante séculos e irmanados até hoje.

O sagrado na Arte: Influencias da relação Brasil-Portugal nos museus e no Patrimônio
Maria Isabel Roque (Universidade Europeia e Universidade Católica, Lisboa, CIDEHUS-UÉ)
Mediadora: Helena Cunha de Uzeda (Coordenadora, PPG-PMUS)
Rio de Janeiro, Museu do Amanhã
Foto: Dália Guerreiro, 2019

Myriam Ribeiro de Oliveira, especialista do barroco e rococó brasileiro e, em particular, mineiro, e Eduardo de Oliveira, estudioso das relações entre o  Minho e Minas Gerais, definindo percursos de artistas e obras entre ambos os lugares, provaram que não é possível – ou, pelo menos, não será adequado – desenvolver projetos de investigação em história da arte nestes períodos confinados a um âmbito nacional, sem escutar os ecos de um sobre o outro, sem analisar os cruzamentos e os seus desvios. E, ao longo de todas as comunicações se sublinhou a ideia de que é muito mais aquilo que nos une do que aquilo que nos separa, sendo que as identidades locais se afirmam e definem a partir de um quadro de referências comuns.

Do Minho para Minas Gerais no século XVIII: Seis percursos
Eduardo Pires de Oliveira (IHA/FL, Universidade de Lisboa)
Mediadora: Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira (PPG-PMUS)
Apresentação: Helena Cunha de Uzeda
Rio de Janeiro, Museu do Amanhã
Foto: Dália Guerreiro, 2019

É o caso dos registos materiais e imateriais da cidade histórica de Paraty, agora integrada na lista de património mundial da UNESCO, onde encontramos as mesmas raízes nas expressões religiosas e artísticas.  Os templos, as alfaias, as festas do culto cristão brasileiro, são idênticos aos templos, às alfaias, às festas do culto cristão em Portugal; os cultos afro-brasileiros incorporam elementos dos rituais católicos, tal como estes recebem elementos daqueles e enriquecem as suas manifestações com apontamentos outras crenças.

A devoção católica como patrimônio: registros materiais e imateriais na cidade histórica de Paraty, RJ
Julio Cézar Neto Dantas (Museu de Arte Sacra de Paraty; Doutorando em Museologia e Patrimônio, PPG-PMUS)
Mediadora: Isabelle Cury (IPHAN)
Rio de Janeiro, Museu do Amanhã
Foto: Dália Guerreiro, 2019

Ouvir José Ligiero, numa comunicação absolutamente inspirada e inspiradora acerca do sagrado na tradição afro-brasileira,  comparar os gestos primordiais dos rituais africanos à coreografia de Carmen Miranda contribui para reforçar esta ideia de que o nosso património, a nossa cultura, é uma espessa rede de conexões e referências.

 

O sagrado na tradição afro-brasileira: processos e registros patrimoniais
José Ligiero (PPGA / CLA)
Mediadora: Maria Amélia Reis ( PPG-PMUS)
Rio de Janeiro, Museu do Amanhã
Foto: Dália Guerreiro, 2019

Se a necessidade de articulação entre a investigação feita no Brasil e Portugal está assumida no domínio da história da arte, porque as fontes e as matrizes dispersas entre ambos os países se completam entre si e os estudos constroem um corpus teórico assente na colaboração e reciprocidade, ainda é rudimentar, ou quase inexistente e reduzida a iniciativas pontuais, no âmbito dos estudos de museu.

Considerações finais apresentadas por Tereza Scheiner
Rio de Janeiro, Museu do Amanhã
Foto: Dália Guerreiro, 2019

Esta reflexão tem particular incidência no que concerne à museologia do sagrado: como resolver a mediação do fenómeno religioso, da função e do sentido dos objetos litúrgicos ou devocionais, dos conceitos teológicos que lhes estão subjacentes, mas também das raízes da cultura popular que lhes foram sendo associadas? E ganha uma maior premência quando ouvimos dizer, a propósito dos rituais apresentados por José Ligiero, “não sei se quero ver isto no museu”. A relutância aqui insinuada reflete o receio de cristalizar a fluidez do intangível, ou de artificializar a espontaneidade de uma prática natural.  Mas é também um indício da relutância em assumir a musealização como um processo vivo e dinâmico, o que, por seu turno, se prende com a dificuldade em encontrar uma definição de museu.

Apresentação da Orquestra Barroca da UNIRIO
Direção Musical: Laura Ronai (UNIRIO)
Rio de Janeiro, Museu do Amanhã
Foto: Dália Guerreiro, 2019

Ao incluir, na programação do simpósio, uma workshop sobre “Arte e Informação: documentando registos materiais e imateriais da arte com as novas tecnologias”, orientada por Dália Guerreiro, aponta para as Humanidades Digitais como método de referência na mediação deste património, sem desvirtuar os espaços museológicos ou religiosos.

Workshop: Arte e informação: Documentando registos materiais e imateriais da arte com as novas tecnologias
Dália Guerreiro (CIDEHUS-UÉ, Universidade de Évora)
Apresentação: Helena Cunha de Uzeda
Rio de Janeiro, Museu do Amanhã
Foto: MIR, 2019

Os desafios da musealização do património sacro e religioso de matriz cristã (ou católica) são idênticos em ambos os países, implicando idênticos significados e experiências. O estudo deste património e dos fenómenos culturais que lhe estão associados, envolvendo uma complexidade de crenças, rituais, tradições e motivações, adquire uma maior consistência através da análise comparativa entre os dois contextos, português e brasileiros, avaliando os respetivos desenvolvimentos entre a continuidade e a rutura, as transferências, as perdas ou as incorporações de outras culturas.

A investigação em acesso aberto passa pelo cruzamento dos dados e pela partilha da informação num enquadramento teórico aberto a novas reflexões, a um contínuo questionamento e a uma incessante submissão das hipóteses à validação corporativa.

Para musealizar o sagrado, é necessário conhecê-lo, identificar a função dos objetos e interpretar os seus significados, articulando as componentes tangíveis e intangíveis, os elementos denotativos e conotativos. Afirmou-se, por isso, ao longo deste seminário e nas conversas marginais que suscitou, a inevitabilidade de uma investigação, não apenas de caráter académico e interdisciplinar, mas que seja capaz de incorporar os agentes do fenómeno religioso, aqueles que o vivem e lhe conferem o sentido, trazendo as suas narrativas para o discurso museológico.

Para musealizar o sagrado, é necessário saber expô-lo, (re)contextualizá-lo na sua funcionalidade litúrgica e devocional, identificar chaves de leitura que facilitem a sua interpretação e contribuam para o seu conhecimento. Foram igualmente recorrentes os debates informais acerca do modo de expor, evocando as iliteracias em confronto com a inevitabilidade do acesso a um manancial de dados não necessariamente traduzidos em informação e, menos ainda, em conhecimento.

Visitas ao património religioso de Minas Gerais
Orientação: Myriam Ribeiro de Oliveira
São João del Rei; Ouro Preto
Fotos: MIR, 2019

Propositadamente – isto é, com um propósito assumido e ponderado nos seus objetivos – o seminário ultrapassou a formalidade do auditório, prolongando-se numa visita ao património religioso, de formalização essencialmente barroca e rococó, refletindo duas sensibilidades espirituais e artísticas distintas, na região de Minas Gerais. Os participantes adicionaram, à condição de investigadores, a de visitantes comuns – ainda que, provavelmente, um pouco mais informados ou especializados nos assuntos do que lhes era dado ver. Esta deambulação através das igrejas, do registo estético e artístico e do sentido teológico, litúrgico e devocional, suscitou a constatação de que os espaços religiosos enfrentam desafios idênticos aos dos museus na exposição do sagrado. Há, em ambos, a mesma necessidade de descodificar o exposto. E, se nas igrejas, a contextualização é mais imediata e favorece a compreensão da função e do sentido, em contrapartida, implica uma maior contensão de meios de forma a que a mediação cultural não se sobreponha à sua dimensão espiritual. Se, algures no tempo, os objetos religiosos abandonaram o seu ambiente original para se tornarem objetos de museu, estimulando a investigação acerca da forma de os expor, apresentando a complexidade dos seus atributos formais e semânticos, impõe-se agora, cada vez mais, a importação dos resultados desta investigação no domínio museológico para comunicar o espaço religioso e todos os elementos que o integram. A musealização do sagrado não se processa apenas nos museus, mas aplica-se (ou deve aplicar-se) também (ou sobretudo?) às igrejas, capelas e santuários.


Fonte: A arte e o sagrado num simpósio de Museologia

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